quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A busca da luminosidade-Desfaço 76 anos... Rubem Alves

Desfaço 76 anos... Rubem Alves

Livro sem fim Rubem Alves

et- Depois de ter experimentado anos de extrema pobreza, Monet começa a prosperar. Em 1883 aluga uma casa em Giverny. Em 1887 expõe novamente em Nova York. Em 1890 a casa é comprada e em 1891 Monet conclui Os Montes de Feno e a série de paisagens do rio Epte. Em 1892 Monet e Alice casam-se. Cuidar do jardim torna-se uma de suas atividades preferidas, são contratados seis jardineiros para ajudá-lo nesse trabalho. É 1893 é comprado também um terreno vizinho onde Monet constrói o jardim aquático, que seria sua grande fonte de inspiração nos anos seguintes.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Ser humano: poético e prosaico - Leonardo Boff - 13 set 09

Disse um dos mais inspirados poetas alemães Friedrich Hölderin (1770-1843):”é poeticamente que o ser humano habita a Terra”. Completou-o mais tarde um pensador francês, Edgar Morin: ”é também prosaicamente que o ser humano habita a Terra”. Poesia e prosa além de gêneros literários, expressam dois modos distintos de ser.


A poesia supõe a criação que faz com que a pessoa se sinta tomada por uma força maior que ela, que lhe traz conexões inusitadas, iluminações novas, rumos novos. Sob a força da criação, a pessoa canta, sai da rotina e assume caminhos diferentes. Emerge então o xamã que se esconde dentro de cada um, aquela disposição que nos faz sintonizar com as energias do universo, que capta o pulsar do coração do outro, da natureza e do próprio Deus. Por esta capacidade se desocultam supreendentes sentidos do real.


“Habitar poeticamente a Terra” significa senti-la como algo vivo, evocativo, grandioso e mágico. A Terra são paisagens, cores, odores, imensidão, fascínio e mistério. Como não se extasiar diante da majestade da floresta amazônica com suas árvores quais mãos ao alto tentando tocar as nuvens, com o emaranhado de seus cipós e trepadeiras, com as nuances sutis de seus verdes, vermelhos e amarelos, com os trinados das aves e a profusão de frutos?


Como não quedar-se boquiaberto pela imensidão das águas que se espraiam mato adentro e descem molemente para o oceano? Como não sentir-se tomado de temor reverencial quando se anda horas e horas pela floresta virgem como me tocou várias vezes com Chico Mendes? Com não sentir-se pequeno, perdido, bichinho insignificante face à incontável biodiversidade? Habitamos poeticamente o mundo quando sentimos na pele o frescor da manhã, quando padecemos sob a canícula do sol a pino, quando serenamos com o cair esmaecido da tarde, quando nos invade o mistério da escuridão da noite. Estremecemos, vibramos, nos enternecemos, nos aterramos extasiados diante da Terra em sua inesgotável vitalidade e no encontro com a pessoa amada. Então todos vivemos o modo de ser poético.


Lamentavelmente, são cegos e surdos e vítimas da lobotomia do paradigma positivista moderno aqueles que vêem a Terra simplesmente como laboratório de elementos físico-químicos, como um conglomerado desconexo de coisas justapostas. Não. Ela é viva, Mãe e Pacha Mama.


Mas habitamos também prosaicamente a Terra. A prosa recolhe o cotidiano e o dia-a-dia cinzento, feito de tensões familiares e sociais, com os horários e os deveres profissionais, com discretas alegrias e disfarçadas tristezas. Mas o prosaico esconde também valores inestimáveis, descobertos depois de longa internação num hospital ou quando regressamos, pressurosos, após penosos meses fora de casa. Nada mais suave que o desenrolar sereno e doce dos horários e dos afazeres caseiros e profissionais. Temos a sensação de uma navegação tranquila pelo mar da vida.


Poético e prosaico convivem, se complementam e se revezam de tempos em tempos. Temos que zelar pelo poético e pelo prosaico de nossas vidas, pois ambos se complementam e estão ameaçados de banalização.


A cultura de massas desnaturou o poético. O lazer que seria ocasião de ruptura do prosaico foi aprisionado pela cultura do entretenimento que incita ao excesso, ao consumo de álcool, de drogas e de sexo. É um poético domesticado, sem êxtase, um desfrute e sem encantamento.


O prosaico foi transformado em simples luta darwiniana pela sobrevivência, extenuando as pessoas com trabalhos monótomos, sem esperança de gozar de merecido lazer. E quando chega o lazer, ficam reféns daqueles que já pensaram tudo para elas, organizaram suas viagens e fabricaram-lhes experiência inesquecíveis. E conseguiram. Mas como tudo é artificialmente induzido, o efeito final é um doloroso vazio existencial. E ai dá-lhes depressivos.

Saber viver com leveza o prosaico e com entusiasmo o poético, é indicativo de uma vida densamente humana.

Leonardo Boff é autor de O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade, Vozes 1999. Ilustre colaborador do Canal de Filosofia do Espaço Ecos Portal VMD, entre outros sítios da Rede.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade

Mundo Grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo, por isso me grito, por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno. Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens. A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens, as diferentes dores dos homens, sabes como é fácil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso num só peito de homem...
sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros, tão calma.
Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos, tão calma!
vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos, as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo,
o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo, entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode. -
Ó vida futura!
nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de setembro de 2009

Alegria é ... Vânia Moreira Diniz



<... Alegria é viver, sentir amar, realizar, ter amigos, compreender, é rir de dentro para fora e sentir prazer nas pequenas coisas, alegria é reconhecer o erro e saber se desculpar sem timidez- - Vânia Moreira Diniz (clique para ler crônica na íntegra )

sábado, 12 de setembro de 2009

Sul do Brasil em alerta: chuva de setembro já supera a média-
11 de setembro de 2009
Em 11 dias, a maioria das estações já registrou quantidade igual ou superior à média histórica para setembro. Só isto já é motivo de alerta e preocupação, pois com a chuva absorvida até agora o solo já está ficando saturado e os rios cheios, alguns até alcançando a cota de alerta de transbordamento, como acontece em rios do planalto norte de Santa Catarina, área próxima da divisa com o Paraná. Daqui para frente, o risco de alagamentos, deslizamentos de encostas e transbordamento de córregos e rios só vai aumentar. A situação é de alerta permanente.


E n x u r r a d a

Neste sexto ( ?) dia chuvoso
o cinza afinal habitou-me
quero a cor de orquídeas
o perfume suave nas brisas...

As janelas lambuzadas de saudade estão
das doce caminhadas
de um por de sol intenso
do berço descoberto
das aves que adentram o coração da casa
em busca de sombra e nectar
de um regozijoso olhar

Ininterrupta chuva despetalou meu sonho primaveril
o estiolamento habita floreiras encharcadas...
e, o alegrar-se dos sapos nesta hora não me apraz...

Verifico a caixa de E mails
há uma enxurrada de repasses a vista embaralha,
já estou tonta diante da tela,
preciso de ar seco- freco,
de estrelas e um luar! -
* virgínia além mar * 12 set 09

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Flor Azul e o Pássaro de Fogo...artefilospsipoesia


Resta a dança do luar sobre a luz das manhãs
Por restar a esperança da paz no lar sonhado


Corre nos veios d´ água o encontro da poesia
com a filosofia , aquém e ao mais além do humano demasiado...


Abriga o brincar , o inútil , a arte a possibilidade de
subtrair o que distrai do mais íntimo pulsar ?


Buscando o pássaro de fogo a cada adormecer
despertar-se-á para o renascer em todas manhãs
e, na espiral celeste habitaremos sem tripudiar ?

Enquanto ao som dos riachos

são tecidos os fios das flores azuis possíveis... *virgínia além mar

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Fragmentos de Filosóficos de - Novalis e , Georg Lukács & além


Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina. Tudo lhes é novo e no entanto familiar, aventuroso e no entanto próprio. O mundo é vasto, e no entanto é como a própria casa, pois o fogo que arde na alma é da mesma essência que as estrelas. (...)
Na verdade, a filosofia é nostalgia, o desejo de se sentir em casa em qualquer lugar. -Das allgemeine Brouillon - Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg-
cujo pseudonimo é Novalis

Eis porque a filosofia, tanto como forma de vida quanto como a determinante da forma e a doadora de conteúdo da criação literária é sempre um sintoma da cisão entre interior e exterior, um índice da diferença entre o eu e o mundo, da incongruência entre alma e ação.
Eis porque os tempos afortunados não têm filosofia, ou, o que dá no mesmo, todos os homens desse tempo são filósofos, depositários do objetivo utópico de toda a filosofia.- LUKÁCS, Georg. Teoria do romance. – pg 25-
Encontrei também disponível na rede o Livro Qu'est-ce que la philosophie-
O que é a Filosofia - de Deleuze e F. Guattari, havia doado o meu e com saudades fui ao google e, achei, vou reler qualquer hora .

visite o Canal de Filosofia Espaço Ecos Portal VMD -um ppt muito bom aqui -

imagens créditos - 1 -fonte virgínia - 2- pássaro de fogo -Mateus,GabrieleMarina


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ocidente & Oriente Afin´ação - & Sinceridade





Sinceridade -

Inúmeros conceitos são utilizados sem o seu conhecimento ( entendimento apropriação do sentido ) então os utilizamos equivocadamente .

A sinceridade implica em coerencia, honestidade, no idioma Japonês encontramos a palavra Makoto , por exemplo para designar este afeto- sinceridade = verdade interior, trata-se de um conceito filosófico-religioso budista , também utilizado pelos mestres das artes marciais , significando "falar a partir de seu coração, em concordância com seus atos."

Também podemos lembrar Confúcio "A sinceridade é o caminho do paraíso; fazer-se sincero é o caminho do homem. A sinceridade alcança o que é certo sem esforço e obtém o entendimento, sem pensar."


Um de meus pensadores prediletos do Ocidente é Gaston Bachelard com o qual concordo plenamente quando este diz que "homem que vive sinceramente suas imagens e suas palavras, recebe delas um benefício ontológico singular "


Afin´ação

Quando a musicalidade íntima cresce, esta vai como que algo-doando as franjas do tempo. As cordas do instrumento vocal afinam-se aos ritmos do pulsar clemente que existe no coração do mundo. Não há música sem ouvido atento. virgínia além mar

imagem - artista russo Vladimir Kush

Notas
1- Enquanto retocava este post ( correções) recebi o Artigo do meu querido amigo Leonardo Bofff, intitulado Zen e a Crise da Cultura Ocidental, que já está disponível em sua Coluna no Canal de Filosofia do Espaço Ecos Portal VMD,

2-O tema deste Post originou-se na discussão na Comunidade do orkut Café Filosófico das Quatro ,através do tópico ...
<> crônica de Rita Ribeiro no Jornal do CF4

inspirada na citação da Psicanalista Betty Milan "Nós nos fazemos por meio da palavra, e, no entanto, a consciência disso é insuficiente. E poucos são capazes de escutar-se, e essa incapacidade é a maior razão do conflito entre as pessoas e os povos." -Betty Milan

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Edgar Morin - entrevista, Artigo e trecho do filme etc..."Você é feliz?"

''Nosso pensamento está muito preso ao passado''
Para Edgar Morin, intelectuais devem ampliar participação nas reformas do mundo atual
Antonio Gonçalves Filho


assita trecho de "Crônica de Um Verão"-
"Você é feliz?" - esta pergunta é o mote do filme do sociólogo Edgar Morin e do cineasta e etnólogo Jean Rouch que saíram colhendo as respostas nas ruas de Paris no verão de 1960

Agora, diferentemente de Dorian Gray, de Oscar Wilde, posso envelhecer em paz, pois minha obra vai se rejuvenecer para sempre na Internet.Edgar MorinSão Paulo, agosto de 2002por ocasião do lançamento do site-... Vocês deram-me a oportunidade de semear minhas idéias, de divulgar meus pensamentos, de comunicar-me com amigos conhecidos e desconhecidos.Este site é bastante inusitado, porque bastante poético; seus temas foram tão bem escolhidos por Nurimar Falci e ilustrados por André Vallias, que eles permitem ver, ao mesmo tempo, meu ser, minha vida e minhas idéias.

Nurimar Falci soube escolher as passagens que mostram que o "escrevente" é também um "escritor". Roland Barthes distinguia os escreventes, que desejam expressar uma mensagem, dos escritores, que gostam de brincar com a linguagem assim como o violinista com seu violino; que gostam de brincar com as palavras, assim como o compositor com as notas. Só por isso já me sinto muito feliz, pois gosto que as palavras brinquem entre si, que elas se divirtam, se acariciem, façam amor. Fico feliz que ele apareça, esse aspecto de mim mesmo, desconhecido por aqueles que negligenciam minha expressão em função de seu conteúdo.Eu gostaria de exprimir, nesta mensagem, duas idéias que emergiram com força em Identidade Humana.A primeira, é que nós somos pela metade sonâmbulos, pela metade despertos. "Acordados eles dormem", dizia Heráclito, que com isto acorda-nos de nosso sonambulismo. Nós somos, como dizia Pascal, ao mesmo tempo autômatos e espíritos. Somos feitos, como o sabia Shakespeare, de um estofo comum ao sonho e à vigília, mas esse estofo comum, eu não o sei decantar e isolar, nem da vigília, nem do sonho.

Eu sinto, de modo contraditório, que nosso mundo é absolutamente real, no sentido em que nada é mais real que o sofrimento, a felicidade, o amor; e que ele é absolutamente irreal, feito de aparências, de miragens, de alucinações e de ilusões, o que vem expresso nos termos Samsara e Maya.

Esse estranho sentimento mora em mim e sempre me acompanha: aquilo que é mais real é também irreal, aquilo que é mais irreal é também real.

Viver, para mim, é também inconcebível, incrível, maravilhoso e horrorizante.

A mosca, a borboleta, a viúva negra, e também o gato e o cão, trazem-me de volta sem cessar esse mistério. Porque o mistério, para mim, não está somente nos problemas insolúveis para nossa razão e nosso espírito; ele está na vida cotidiana.

A segunda idéia é que tudo o que não se regenera acaba se degenerando.

Tudo o que se encontra em estado nascente é apaixonante: um amor, uma revolução, uma infância.

Mas tudo tende também a degenerar, a enrijecer, a esclerosar-se, a degradar-se, a morrer.

Ora, a grande lição que a organização viva nos dá é que ela é capaz de regenerar-se trocando as moléculas e as células do corpo que se degradam por moléculas e células que o regeneram.

De onde a verdade do "viver de morte, morrer de vida", de Heráclito.

Um amor duradouro é um amor sem cessar re-nascente, que continuamente reencontra o enamoramento.

Para manter uma conquista, é preciso regenerá-la sem parar. Para cada um e para todos, para si mesmo e para o outro, no amor, na amizade, no avanço da idade, é necessária a regeneração permanente.

"Quem não está nascendo está morrendo", canta Bob Dylan. É uma das mais importantes lições que eu extraí dos 32 anos de trabalho e de esforço necessários para O Método.

Para progredir, é necessário reencontrar a fonte regeneradora. Ela está em cada um de nós, como estão em cada um de nós – faz pouco tempo que temos conhecimento disso – as células-tronco capazes de regenerar nossos órgãos, mas que ainda não sabemos utilizar.

Nós possuímos em nós mesmos, não a fonte da vida eterna, mas a força da juventude. Isto, mesmo na idade madura, o que muitos, adulterados antes da idade, ignoram. Garcia Márquez observava: "não digam que vocês não se apaixonam mais porque estão velhos, digam que vocês estão velhos porque não se apaixonam mais".

A fonte da juventude chama-se amor.Edgar Morin- Paris, novembro de 2001.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Imersão Cósmica

Imersão Cósmica
Eliana f.v. – Li Andorinha

Numa amnésia voluntária
deixo ir toda rigidez estrutural
E tudo o que foi dito...
do jeito humano de ser

Sou fruto da poeira cósmica
com estilhaços da magia

Murmurando silêncios
em ondas magnéticas
de franca alegria

Absorvendo todo esplendor
que um sorriso pode ter

Meu olhar... É só delírio...
do luar que se esparrama
na palma da minha mão

Impregnada dessa luz
viro brincadeira de pirilampos
Espalhando estrelas no chão

domingo, 30 de agosto de 2009

Michèle Sato e alguns de seus fascínios

<<...Citando os fenomenólogos ateístas, como Sartre, MPonty ou Camus; Karen Armstrong é genial em afirmar que “um ateísmo apaixonado e engajado pode ser mais religioso que um ateísmo morno”. Durante os anos que neguei este Deus instituído, sempre percebi que onde havia esperanças, havia religião. Também percebi que a alma generosa sempre tinha uma fé em evidenciar um outro ser absoluto que eu habitualmente negava. Ora, se Heidegger estiver correto, quando afirmava que o outro é nada, contudo, só ele torna possível a nossa existência, talvez eu possa aproximar meu ateísmo apaixonado ao campo religioso. ...> Michèle Sato

O INSTITUÍDO E O INSTITUINTE DA ERA DE AQUÁRIOMichèle Sato

hoje recebi um scrap que perfaz o fascínio das águas suas cores sons-movimentos, entre o silencio das rochas no viver das ilhas possíveis e um pouco da arte de Magritte

trago também o Poema de Michèle

na geografia do atrito
américa - europa - áfrica
cabo verde provocao confronto da fricção
a calmaria da união
mar pedra
mão pedra
mulher pedra
pedras do brasil
brasil de pedras== saudades...[mimi]*..*..*



impressões de um País http://www.orkut.com.br/Main#Scrapbook.aspx

VICA
como vai, tudo bem, querida amiga?Segue mais um trechinho do meu diário para vc... Em Cabo Verde, 04ago09...Um dia quente que começava atrasado no mau humor da espera. Uma viagem longa que nos movia a comprar a comida e bebida ainda faltosas após o cuidado solidário da Aidil, doce e tão hospitaleira amiga cabo-verdiana... A paisagem mostrava exuberante de um lado, com um azul do mar tocando a beira da ilha, oferecendo dádivas em tom turquesa que arrebatavam corações brasileiros. Após cada curva, nova descoberta de pedacinhos do mar, fragmentos de rocha e detalhes singulares de belezas em movimento. Maré alta, maré baixa, água azul, água branca... Porém, do outro lado, a aridez das montanhas me dilacerava as entranhas, nas pedras sobre as pedras de um deserto montanhoso, sem uma sombra ou árvores grandes que justificassem o verde ecologista. Nunca estive num país com tantas rochas... pedras de todos os tamanhos, cores e talvez sabores. Se elas pudessem falar... Quanta memória haveria silenciada - Michèle Sato

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Homo artisticus-Marcelo Gleiser


Do pouco que conhecemos a respeito dos nossos ancestrais, identificamos neles bastante do que somos hoje. A diferença é que eles viviam em comunhão com o mundo - e não em guerra com ele.

Se a natureza cantava, os homens queriam cantar também

A Terra tem uma idade aproximada de 4,5 bilhões de anos.Nossa espécie, o Homo sapiens, apareceu em torno de 200 mil anos atrás, na África. Se concentrássemos 4,5 bilhões de anos em uma hora, nosso aparecimento teria ocorrido há menos de dois décimos de segundo. Somos a presença mais recente neste planeta e nos achamos donos dele. Algo para refletir.Evidências fósseis e genéticas indicam que grandes migrações da África em direção à Eurásia e à Oceania ocorriam já há 70 mil anos. A fala, parece que tínhamos há pelo menos 50 mil anos. Dos 200 mil anos que marcam a nossa presença na Terra, há apenas 10 mil nós nos organizamos em sociedades agrárias, capazes de se sustentarem com o plantio e colheita regular de espécies de vegetais domesticados.Certamente, quando essas sociedades começaram a se organizar, alguns animais também foram domesticados.Antes dessas sociedades agrárias, bandos de homens e mulheres corriam pelas savanas africanas e planícies eurasiáticas à procura de alimentos e abrigo. Os perigos eram muitos, de animais predadores e grupos inimigos a fenômenos naturais violentos, como misteriosos vulcões e terremotos. Para sobreviver, nunca se podia baixar a guarda.Desde cedo, ficou claro aos nossos antepassados que a natureza tinha seus próprios ritmos, alguns regulares e outros irregulares.
A linguagem nasceu tanto para facilitar a sobrevivência dos grupos quanto para imitar os sons ouvidos pelo mundo, de cachoeiras e trovões aos pássaros e os temidos tigres. Se a natureza cantava, os homens queriam cantar também.Recentemente, foram descobertos os instrumentos musicais mais antigos, flautas feitas de ossos de abutres e mamutes, datando entre 35 mil e 40 mil anos atrás. Os objetos foram encontrados em uma região na Alemanha, provando que não só humanos haviam já saído da África então, como também haviam desenvolvido habilidades musicais e artesanais. Se o vento assobiava ao passar por frestas e galhos, se gotas caiam ritmicamente das folhas, os homens procuravam imitar esses sons, criando os instrumentos capazes de fazê-lo.Apesar de não sabermos muito sobre os costumes dessa gente, é difícil evitar imagens, talvez um pouco românticas, do que ocorria então. A vida era difícil. Provavelmente poucos sobreviviam além dos 20 anos. Mas imagino que existisse uma abundância enorme de animais nos campos, mares e rios. Pinturas nas cavernas da Europa e da África, algumas datando de mais de 20 mil anos atrás, mostram uma enorme variedade de animais e também de cenas de caçadas e de rituais. Provavelmente grupos se reuniam nas cavernas para comer, dormir e celebrar uma boa caça. As pinturas podiam ser tanto ornamentos quanto desenhos ritualísticos que faziam parte de cerimônias religiosas.Certamente o som das flautas e dos tambores acompanhava os rituais, talvez até na tentativa de imitar os grunhidos dos animais e os sons do ambiente natural onde viviam.A música e a pintura não eram as únicas expressões artísticas dessas sociedades ancestrais. A escultura também. Figurinos conhecidos como Vênus do Paleolítico, datando de mais de 25 mil anos, mostram o corpo de mulheres bem dotadas de estrogênio, provavelmente símbolos de fertilidade. O impulso criativo parece ser tão antigo quanto a nossa espécie.Do pouco que conhecemos a respeito dos nossos ancestrais, identificamos neles bastante do que somos hoje. A diferença é que eles viviam em comunhão com o mundo -e não em guerra com ele.
Marcelo Gleiser, físico--Folha de SP, 23 de agosto 09