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domingo, 12 de julho de 2009

Sentidos - Amauri Ferreira

Sentidos

Quando entendemos que nos relacionamos com o mundo sempre de maneira fragmentada, percebemos que cada elemento da natureza exprime uma riqueza própria, de modo que toda a realidade é renovada pelas singularidades. Quando escutamos uma música, percebemos que há um mundo envolvido na maneira de frui-la: o conforto da poltrona onde sentamos, a ausência de ruído na sala, a necessidade de suspendermos a visão, as lembranças que emergem juntamente com os movimentos musicais, os braços que balançam, as lágrimas que escorrem, em suma, um outro que nos habita revela-se para a nossa consciência – a experiência musical, por não limitar-se à audição, é, antes de tudo, uma grande aliança entre os nossos sentidos. Mas uma poltrona desconfortável, um ruído na sala, os olhos que se abrem, fazem que o mergulho cada mais profundo em nossas lembranças seja bruscamente interrompido: então, a experiência torna-se radicalmente diferente, apesar da música ser a “mesma”. Experiências singulares, acontecimentos: isso ocorre com todas as coisas que nos relacionamos, mesmo quando não nos atentamos à múltipla riqueza de um mesmo objeto, pois, afinal, o nosso corpo sempre deseja outros corpos. É por isso que quando o nosso corpo se relaciona com um outro corpo humano, os nossos sentidos deleitam-se com a imensidão de um novo mundo que abre-se para eles. Através do nosso tato, nos enchemos de alegria: seja quando tocamos, de maneira dengosa, a pele do outro corpo, com os nossos dedos que deslizam sobre o rosto, as orelhas, o pescoço e as pernas, ou então, quando a palma da nossa mão junta-se com a de alguém, conseguimos perceber o movimento de fechar as mãos apenas iniciar-se, ou, ainda, quando há um delicado roçar entre os narizes... Através da nossa visão, nos enchemos de alegria: quando olhamos, atentamente, para os olhos de alguém, conseguimos acompanhar, no intervalo das piscadas, o brilho da vida que emana dali... Através do nosso olfato, nos enchemos de alegria: quando encostamos o nosso nariz na pele de alguém, sentimos o cheiro da vida... Através da nossa audição, nos enchemos de alegria: quando ouvimos um voz sussurrada bem próxima ao nosso ouvido, com um tom tão delicado, que percebemos que ela expressa um enorme cuidado de não afastar a presença do silêncio – afinal, as palavras sussurradas se entendem muito bem com o silêncio... Através do nosso paladar, nos enchemos de alegria: quando beijamos alguém lentamente, sentimos o sabor do amor... Devemos nos livrar do amor a uma pessoa, a um suposto objeto completo, porque é um amor idealizado, sintoma de desperdício do corpo, de desprezo dos sentidos – por isso é inevitável que esse amor seja pobre. Quando menosprezamos o corpo, cometemos o nosso maior erro: como não mudamos a nossa vida, não podemos mudar a vida de alguém... Devemos amar o que se passa em cada sentido, amar as intensidades, para compreendermos que não somos apenas um, mas muitos. Isso é uma relação de amor para com alguém, para com todo o mundo. É impossível que cada toque, olhar, cheiro, som, sabor, seja uma experiência igual a outra. Afinal, cada sensação tem o seu ineditismo, sua singularidade, e viver é alimentar-se a todo momento das diferenças, do inesgotável.


Outra crônica excelente do autor Respiro


Todo corpo e toda mente são perfeitos. O que faz uma mente ser
mais perfeita do que outra é a capacidade de uma produzir mais
idéias do que a outra ...


O corpo sempre sofre afecções — ou modificações — nas misturas com outros
corpos e a mente produz idéias dessas afecções. Porém, Espinosa faz uma observação importante a respeito da união da mente e do corpo: "Ninguém, entretanto, poderá compreender essa união adequadamente, ou seja, Distintamente,se não conhecer, antes, adequadamente,a natureza de nosso corpo." (Ética, 2,Prop.13, esc.).
...A vida humana torna-se pesada quando se tenta, a todo momento,
corrigir a falta dessa ordem imaginária



Amauri Ferreira é Filósofo e colaborador do Canal de Filosofia do Espaço Ecos Portal VMD