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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Edgar Morin - entrevista, Artigo e trecho do filme etc..."Você é feliz?"

''Nosso pensamento está muito preso ao passado''
Para Edgar Morin, intelectuais devem ampliar participação nas reformas do mundo atual
Antonio Gonçalves Filho


assita trecho de "Crônica de Um Verão"-
"Você é feliz?" - esta pergunta é o mote do filme do sociólogo Edgar Morin e do cineasta e etnólogo Jean Rouch que saíram colhendo as respostas nas ruas de Paris no verão de 1960

Agora, diferentemente de Dorian Gray, de Oscar Wilde, posso envelhecer em paz, pois minha obra vai se rejuvenecer para sempre na Internet.Edgar MorinSão Paulo, agosto de 2002por ocasião do lançamento do site-... Vocês deram-me a oportunidade de semear minhas idéias, de divulgar meus pensamentos, de comunicar-me com amigos conhecidos e desconhecidos.Este site é bastante inusitado, porque bastante poético; seus temas foram tão bem escolhidos por Nurimar Falci e ilustrados por André Vallias, que eles permitem ver, ao mesmo tempo, meu ser, minha vida e minhas idéias.

Nurimar Falci soube escolher as passagens que mostram que o "escrevente" é também um "escritor". Roland Barthes distinguia os escreventes, que desejam expressar uma mensagem, dos escritores, que gostam de brincar com a linguagem assim como o violinista com seu violino; que gostam de brincar com as palavras, assim como o compositor com as notas. Só por isso já me sinto muito feliz, pois gosto que as palavras brinquem entre si, que elas se divirtam, se acariciem, façam amor. Fico feliz que ele apareça, esse aspecto de mim mesmo, desconhecido por aqueles que negligenciam minha expressão em função de seu conteúdo.Eu gostaria de exprimir, nesta mensagem, duas idéias que emergiram com força em Identidade Humana.A primeira, é que nós somos pela metade sonâmbulos, pela metade despertos. "Acordados eles dormem", dizia Heráclito, que com isto acorda-nos de nosso sonambulismo. Nós somos, como dizia Pascal, ao mesmo tempo autômatos e espíritos. Somos feitos, como o sabia Shakespeare, de um estofo comum ao sonho e à vigília, mas esse estofo comum, eu não o sei decantar e isolar, nem da vigília, nem do sonho.

Eu sinto, de modo contraditório, que nosso mundo é absolutamente real, no sentido em que nada é mais real que o sofrimento, a felicidade, o amor; e que ele é absolutamente irreal, feito de aparências, de miragens, de alucinações e de ilusões, o que vem expresso nos termos Samsara e Maya.

Esse estranho sentimento mora em mim e sempre me acompanha: aquilo que é mais real é também irreal, aquilo que é mais irreal é também real.

Viver, para mim, é também inconcebível, incrível, maravilhoso e horrorizante.

A mosca, a borboleta, a viúva negra, e também o gato e o cão, trazem-me de volta sem cessar esse mistério. Porque o mistério, para mim, não está somente nos problemas insolúveis para nossa razão e nosso espírito; ele está na vida cotidiana.

A segunda idéia é que tudo o que não se regenera acaba se degenerando.

Tudo o que se encontra em estado nascente é apaixonante: um amor, uma revolução, uma infância.

Mas tudo tende também a degenerar, a enrijecer, a esclerosar-se, a degradar-se, a morrer.

Ora, a grande lição que a organização viva nos dá é que ela é capaz de regenerar-se trocando as moléculas e as células do corpo que se degradam por moléculas e células que o regeneram.

De onde a verdade do "viver de morte, morrer de vida", de Heráclito.

Um amor duradouro é um amor sem cessar re-nascente, que continuamente reencontra o enamoramento.

Para manter uma conquista, é preciso regenerá-la sem parar. Para cada um e para todos, para si mesmo e para o outro, no amor, na amizade, no avanço da idade, é necessária a regeneração permanente.

"Quem não está nascendo está morrendo", canta Bob Dylan. É uma das mais importantes lições que eu extraí dos 32 anos de trabalho e de esforço necessários para O Método.

Para progredir, é necessário reencontrar a fonte regeneradora. Ela está em cada um de nós, como estão em cada um de nós – faz pouco tempo que temos conhecimento disso – as células-tronco capazes de regenerar nossos órgãos, mas que ainda não sabemos utilizar.

Nós possuímos em nós mesmos, não a fonte da vida eterna, mas a força da juventude. Isto, mesmo na idade madura, o que muitos, adulterados antes da idade, ignoram. Garcia Márquez observava: "não digam que vocês não se apaixonam mais porque estão velhos, digam que vocês estão velhos porque não se apaixonam mais".

A fonte da juventude chama-se amor.Edgar Morin- Paris, novembro de 2001.