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domingo, 26 de julho de 2009

Assim escrevo...

Assim escrevo....
Eliana f.v. – Li Andorinha

Fujo da idealização
Sigo meus instintos
comandados pelas...
sensações

Aceito como certo
desvencilhar-me de ditames

Contemplando a natureza
e todo seu encanto
deixo-me levar
pelos acontecimentos

Esqueço o ranço teórico
Aprendo experimentando

Dou asas à imaginação
brinco com o arrepio de medo
que inventa assombração

Agora sou toda rebelião
salientando o significado
de cada instante

Se alegre eternizo-o
Se triste enfrento-o...

Para gozar...
No suspiro do alívio
25-07-2009

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Saudando os Escritores em seu Dia


<...O Dia do escritor me faz pensar nos grandes expoentes que foram nossos mestres, nos quais nos apoiamos e com quem aprendemos a avaliar em cada linha a qualidade de suas prosas ou poesias. E exaltá-los por todos os momentos em que estivemos em contato com eles, usufruindo a literatura, exaltando-a e transformando-a no elo que une todos os seres humanos num movimento de amor e compreensão. Vânia Moreira DinizJulho- 2009 >

...
Mais produtivo do que tentar definir Literatura talvez seja encontrar um caminho para decidir o que torna um texto, em sentido lato, literário. A definição de literatura está comumente associada à idéia de estética, ou melhor, da ocorrência de algum procedimento estético. Um texto é literário, portanto, quando consegue produzir um efeito estético e quando proporciona uma sensação de prazer e emoção no receptor. A própria natureza do caráter estético, contudo, reconduz à dificuldade de elaborar alguma definição verdadeiramente estável para o texto literário. Para simplificar, pode-se exemplificar através de uma comparação por oposição. Vamos opor o texto científico ao texto artístico: o texto científico emprega as palavras sem preocupação com a beleza, o efeito emocional.
No texto artístico,ao contrário, essa será a preocupação maior do artista.


É óbvio que também o escritor busca instruir, e perpassar ao leitor uma determinada idéia; mas, diferentemente do texto científico, o texto literário une essa instrução à necessidade estética que toda obra de arte exige. O texto científico emprega as palavras no seu sentido dicionarizado, denotativamente, enquanto o texto artístico busca empregar as palavras com liberdade, preferindo o seu sentido conotativo, figurado.

O texto literário é, portanto, aquele que pretende emocionar e que, para isso, emprega a língua com liberdade e beleza, utilizando-se, muitas vezes, do sentido metafórico das palavras.
A compreensão do fenômeno literário tende a ser marcada por alguns sentidos, alguns marcados de forma mais enfática na história da cultura ocidental, outros diluídos entre os diversos usos que o termo assume nos circuitos de cada sistema literário particular.
Assim encontramos uma concepção "clássica", surgida durante o Iluminismo (que podemos chamar de "definição moderna clássica", que organiza e estabelece as bases de periodização usadas na estruturação do cânone ocidental); uma definição "romântica" (na qual a presença de uma intenção estética do próprio autor torna-se decisiva para essa caracterização); e, finalmente, uma "concepção crítica" (na qual as definições estáveis tornam-se passíveis de confronto, e a partir da qual se buscam modelos teóricos capazes de localizar o fenômeno literário e, apenas nesse movimento, "defini-lo").

Deixar a cargo do leitor individual a definição implica uma boa dose de subjetivismo, (postura identificada com a matriz romântica do conceito de "Literatura"); a menos que se queira ir às raias do solipsismo, encontrar-se-á alguma necessidade para um diálogo quanto a esta questão. Isto pode, entretanto, levar ao extremo oposto, de considerar como literatura apenas aquilo que é entendido como tal por toda a sociedade ou por parte dela, tida como autorizada à definição. Esta posição não só sufocaria a renovação na arte literária, como também limitaria excessivamente o corpus já reconhecido.
De qualquer forma, destas três fontes (a "clássica", a "romântica" e a "crítica") surgem conceitos de literatura, cuja pluralidade não impede de prosseguir a classificações de gênero e exposição de autores e obras.-
A Wikipédia possui o Portal de Literatura-Mayara Bravim

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Elenir Burrone -cachorro não é gente

Adeus a Capitu ...O clichê diz que o cão é o maior amigo do homem. Amigo tem uma raiz linguística fascinante que identifica a palavra com o amor, outra palavra interessante, que tem uma parte de delícia, prazer e malícia e outra de dor. Um parente disse, incautamente, que “cachorro também é gente”. Acho que não soube formular exatamente o seu conceito: cachorro não é gente, tem as prerrogativas de gente porque se coloca ao nosso lado, mas tem algo mais, que só se revela quando olhamos para ele e enxergamos a busca de nós mesmos. Seus olhos, nesse momento revelam-nos o que somos: queridos ou abominados. Cachorro é espelho....
Nele podemos ver-nos com a nudez da verdade, se é que ela existe. O que via, nos olhos de Capitu, era comoção, era resignação de quem busca e sabe que nunca vai encontrar porque o mistério é o limite que nos foi imposto. Ontem tive que dizer adeus a Capitu. Ela se foi. E eu não me encontro em Camões e acho que nunca mais terei para onde olhar e ver-me tão bem refletida como em suas pupilas tão lindas de cor tão indefinível, tão indefinível como é o mistério da vida e da morte.- Elenir Burrone in -Adeus a Capitu

terça-feira, 21 de julho de 2009

Viver - Amauri Ferreira *

Viver
Amauri Ferreira *

Amadurecemos muito mais quando nos relacionamos com aqueles indivíduos que ativam os diferentes “eus” que estão em nós. Isso acontece nas relações que são desprovidas de julgamento, de censura, de vergonha, de cobrança – deixar-se viver, não levando o outro e nem a si mesmo a sério, é tudo o que importa. Não há dúvida de que o lúdico e a inocência dos nossos atos nos dão a confiança necessária para desejar que esses estranhos em nós sejam evocados. Como somos contagiados pela alegria que nasce nos encontros com alguém, certamente o nosso amor pela vida torna o amor que nasce no outro cada vez mais forte... Há um acúmulo recíproco de riquezas e, como conseqüência, podemos até afirmar que praticamente existe uma “disputa” de quem pode doar mais, de quem pode produzir mais. A qualidade da relação não poderia ser avaliada por tudo aquilo que nos desperta, que nos leva à ação e à nossa despersonalização?... Nessas experiências sentimos que somos ora mais jovens, ora mais velhos, e que também somos pais, filhos, homens, mulheres, animais. Protegemos e somos protegidos, ensinamos e aprendemos, esperamos e somos esperados. E, além disso, aprendemos a viver num ritmo em que o tempo cronológico deixa ser a referência do nosso percurso espiritual – assim conquistamos o tempo dos afetos... Isso tudo é exatamente o oposto das relações tristes, que reproduzem o ódio e o ciúme, que envolvem julgamento, censura, vergonha, medo e, em suma, constrangimento da nossa natureza. As relações tristes não cessam de reprimir os nossos “eus” ao reforçar a identidade, a função social, o papel familiar, o lugar no mundo - um mundo cada vez mais desprovido de emoções. Tristeza e falta são apenas conseqüências de uma vida que não aprendeu a rir, que leva demasiado a sério os "problemas-do-cotidiano-que-atormentam-o-seu-euzinho"... Mas quando beijamos os dedos de uma de nossas próprias mãos para, em seguida, encostá-los carinhosamente sobre o peito de alguém que amamos, muita coisa pode ser mudada... Viver é, sobretudo, tocar e ser tocado, e transformar-se, transformar-se, transformar-se...
Amauri Ferreira é Prof de Filosofia da Escola Nômade autor do Livro Introdução à filosofia de Spinoza- Editora Quebra Nozes- e Colaborador do Canal de Filosofia do espaço Ecos Portal VMD

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Doce Amizade

Vânia Moreira Diniz



Na esperança de meu olhar,
Na claridade que experimento,
Sinto a saudade a me congelar,
E viajo nesse estranho sentimento.

Visualizo então seu carinho protetor,
Amigos que amei tão instintivamente,
Sentindo na energia do espaço o sabor,
Da afeição natural,sincera e veemente.

Elo forte e persuasivo nos prendeu,
Na expressão das palavras a explodir,
E já nem sei de que forma se ergueu.

Outras horas de união hão de vir,
E sinto no peito doce emoção,
Amizade profunda, uma lição!

Vânia Moreira Diniz

Amigos,
Para o dia do Amigo uma Homenagem, reafirmando carinhosamente que a amizade verdadeira é um tesouro raro e precioso

sábado, 18 de julho de 2009

.O Céu Embaixo da Terra &..Contos da Infância Galáctica- Marcelo Gleiser

O Hubble não passa de um robô extremamente sofisticado, desenhado para colher imagens de alta precisão de objetos celestes próximos e muito distantes.
Assim como ele, existem muitos outros robôs observatórios colhendo dados em regiões do espectro eletromagnético além das que nos são visíveis. Um exemplo recente é o observatório espacial Glast, que estuda a radiação eletromagnética (RE) mais energética, os raios gama. De passagem, menciono que um dos operadores principais do Glast é o físico brasileiro Eduardo do Couto e Silva (tema da coluna de 15 de junho de 2008).
Mas existe outro tipo de astronomia que, paradoxalmente, para estudar o que existe nos céus, é realizada embaixo da Terra. Para entendermos como isso é possível, é bom lembrar que a luz, os raios X, os raios gama e as várias outras formas de RE são compostas de partículas chamadas fótons. Os telescópios que captam a luz, os raios gama ou outros tipos de RE são, na verdade, detectores de fótons, como se fossem redes de pesca desenhadas para apreender essas partículas. Só que os fótons não são as únicas partículas que existem nos céus. Pelo contrário, muitas outras “chovem” continuamente sobre nós. A maioria faz parte dos chamados raios cósmicos, compostos principalmente de prótons, elétrons e múons, que são elétrons mais pesados. Outras são os neutrinos, as “partículas-fantasma”, produzidas no coração do Sol. Neutrinos são capazes de atravessar a matéria normal como se fossem fantasmas.
Paredes ou mesmo a Terra inteira não são obstáculos para eles. Algumas partículas, como os elétrons e os múons, também penetram a matéria por boas distâncias. Portanto, para estudar os neutrinos sem a interferência de outras partículas, físicos usam cavidades subterrâneas, em geral minas abandonadas. Nelas, montam seus “telescópios”, detectores capazes de identificar as raras colisões de neutrinos com a matéria comum.Existem outras partículas cruzando o espaço ainda mais misteriosas do que os neutrinos. Delas sabemos apenas que não são como a matéria comum. Elas não produzem RE, como fazem os elétrons. Portanto, não brilham, sendo conhecidas como “matéria escura”. Sabemos que existem apenas porque sua massa afeta o comportamento das galáxias pela gravidade. Cada galáxia tem uma espécie de véu de matéria escura, com uma massa que chega a ser dez vezes maior do que a massa de todas as suas estrelas.
A matéria escura também é caçada em observatórios subterrâneos. Até agora, nenhuma candidata foi detectada, o que causa uma certa ansiedade nos físicos. Mas também aumenta o seu fascínio. Vivemos numa realidade dominada pelo que nos é invisível
. -O Céu Embaixo da Terra -Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo em março de 2008


Sabemos hoje a idade do Universo: em números arredondados, 14 bilhões de anos. Esse é o tempo passado desde o Big Bang, o evento que deu origem a tudo. Sabemos, também, que o Universo é salpicado de centenas de bilhões de galáxias, cada uma com milhões ou até centenas de bilhões de estrelas. Esse é o caso da nossa galáxia, a Via Láctea, onde o Sol é uma humilde estrela em meio a tantas outras.



Mas não se iluda pensando que essas estrelas todas estão pertinho umas das outras. Não, o espaço é praticamente vazio, e as distâncias entre as estrelas são em média de dezenas de anos-luz. Ou seja, viajando à velocidade da luz, demoraríamos dezenas de anos para ir de uma a outra.
Mesmo com tantas estrelas, a galáxia em si é tão enorme que as distâncias entre elas são…astronômicas. A Via Láctea tem um diâmetro de 100 mil anos-luz. Com tecnologia atual, demoraríamos em torno de 25 mil anos para atravessar um mero ano-luz. A galáxia inteira tomaria uns 2,5 bilhões de anos. Penso nisso e sinto uma grande solidão: estamos mesmo muito isolados do resto do cosmo, nós e os outros planetas do Sistema Solar, todos eles -ao menos hoje- sem vida.
A Terra é uma ilha de atividade biológica em meio à desolação total que nos cerca por muitos anos-luz. Mas o Sol não é a única estrela. E a Via Láctea não é a única galáxia. Hoje temos uma visão do cosmo que é semelhante à de um campo com árvores de Natal espalhadas na noite escura.
Cada árvore iluminada é uma galáxia, e as luzes, suas estrelas. Na escuridão da noite, vemos apenas as luzes das árvores piscando, parecendo flutuar pelo campo afora. Assim nos parecem as galáxias, formadas apenas de estrelas e gás. De perto, porém, a história é outra. Na árvore de Natal existe uma estrutura que sustenta as lâmpadas, a árvore e os seus galhos. Mas e nas galáxias? O que as sustenta? Em cada uma delas existe também uma estrutura, uma teia invisível de matéria que dá suporte às estrelas e ao gás que produz sua luz.
Só que essa teia invisível não é feita da mesma matéria que as estrelas e as nuvens de gás. Essa “matéria escura” – esse é o seu nome – não tem nada a ver com a matéria comum que conhecemos. Ninguém sabe que matéria é essa. Mas sabemos que cerca de 80% da massa das galáxias corresponde a essa matéria e não às estrelas. Exagerando um pouco a metáfora das árvores de Natal, nelas também a massa em matéria escura – o tronco e os galhos – é bem maior do que a massa total das pequenas lâmpadas.
Uma das questões de ponta em astrofísica, fora, claro, o que é essa matéria escura, é como nasceram as galáxias. Sabemos que a grande escultora das formas cósmicas é a força da gravidade. Dado que 80% da massa das galáxias é em matéria escura, é claro que sua dinâmica de formação também é dominada por esse tipo de matéria. Estudando as propriedades de galáxias quando o Universo tinha 7 bilhões de anos, metade de sua idade atual, astrônomos descobriram que as coisas eram semelhantes; os mesmos tipos de galáxias, com a mesma dinâmica: galáxias espirais cheias de estrelas nascendo e galáxias elípticas com estrelas velhas.
A matéria escura cria poços gravitacionais para onde flui a matéria normal, que forma as estrelas. Esse movimento causa ondas de choque violentas. Quanto mais matéria escura, mais violenta a onda de choque. Nos casos mais dramáticos, o choque pode interromper a formação de estrelas. Galáxias elípticas são as que têm a formação de estrelas interrompida mais cedo. Mesmo que ainda existam muitos pontos obscuros, a infância das galáxias começa a ser desvendada.
Marcelo Gleiser é professor de Física Teórico no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro “A Harmonia do Mundo”Este artigo foi originalmente publicado na Folha de São Paulo em 24 de agosto de 2008

Realidade– Uma Década Do Sonho VMD



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sexta-feira, 17 de julho de 2009

memórias - elenir burrone

memórias
(para virgínia e lu)


no vão da janela, o céu espia, distraída, a vida, lá dentro, desafia seu fio, vazia, vazia: um chinelo sem pé, um casaco sem braços, um copo pela metade, de chá, café, sabe-se lá...,livros meditabundos na estante, uma estátua nua, que se esconde, na sombra do abajur, do olhar cúpido do visitante indesejado, no ar, um gosto de solidão
só o olho do velho, desperto, habita a sala, vagueia, encontra os olhos curiosos do céu, pisca, arrisca-se, arremessa-se: azul com azul, mar, imensidão..., a lembrança do velho voa, salta da rocha escarpada, mergulha nas águas escuras, sente o frio de uma realidade antiga e traz, lá do fundo, um grito de espanto, um riso cristalino, mãos de ânsia estendida, boca macia que esmaga
o sol arde, é verão, e o universo solitário do avô enche-se de calor que o céu e a lembrança despertaram-lhe no coração-

*Elenir Burrone professora de língua portuguesa dirige a OFICINA LITERÁRIA PÁSARGADA MOCOCA – SP - Brasil-
"Ninguém é totalmente feliz/Ninguém é totalmente bem sucedido/O momento é um convite apenas/ Um convite para ser vivido"
ilustração Obra Renè Magritte - por virgínia

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Parabéns Discutindo Literatura por seus Quatro anos

Com uma inquietude e senso investigatório notável encontrei Luciana. Sua inteligência e sensibilidade agregou em sua Comunidade no Orkut;Discutindo Literatura criada em julho de 2005, mentes de extraordinária competência. Encontrei neste espaço abertura às discussões e sobretudo à escuta indispensável ao diálogo, como disse Paulo Freire nem sempre o diálogo implica em perguntar e responder... A Discutindo Literatura é um acontecimento que promove encontros. Diante de alguns Entrevistados na Comunidade, enquanto em silêncio lemos ( ouvimos ) a dialógica está acontecendo. Além das Estrevistas excelentes, a dinâmica da Comunidade abre-se como um leque de criatividade, instigando os participantes a compartilhar suas produções literárias, estejam publicadas ou não, estimulando e desafiando a todos a levarem mais a sério seus sonhos e projetos.Como nestes dias a Discutindo Literatura completa, com sucesso seus quatro anos de existência, resistindo através do esforço incansável de sua criadora , que além das acima mencionadas qualidades, agrega em sua personalidade uma leveza e luminosidade cativante, não menor que sua simplicidade e vontade de fazer amigos , quero registrar meus sinceros parabéns.Tão válidas iniciativas são raras nestes tempos de visibilidade individual.Sou imensamente agradecida por encontrar-me entre os participantes da Comunidade, que também promove amizades pois nesta cultiva-se um pouco ainda, do desinteresse e real vontade de acrescentar conhecimentos e divulgar sem reservas a cultura e, no fazer de laços afetivos que transcendem a si mesma, numa constante tentativa de avanço à espaços não só gregários. Assim sinto-me à vontade para saudar Luciana e agradecer –lhe por tudo quanto nos enriquece, assim como aos participantes que com ela tornam possível o andamento deste projeto merecedor de respeitável reconhecimento .

Enxurrada - Luciana Pessanha Pires



Enxurrada
Tivesse coragem mudaria o rumo, seria a mulher virtuosa de provérbios, cumpriria meus votos, não iria vistoriar a volta do pé de ninguém, nem iria rodar a baiana quando pisassem no meu calo, usaria mais eufemismos e a quem me pedisse a capa eu daria, mas eu não dou minha cara a tapa e sempre tenho algo a falar em qualquer reunião, é chato sempre ter algo a falar, mais chato ainda é nunca ter nada a ser dito.Gosto de boas intenções, tenho tantas boas intenções, se fosse planta e vingasse daria um jardim imenso, infelizmente muitos planos se perdem, meu curso de fotografia sempre adiado, um rosário de decisões para viver amanhã, tempo perdido com inutilidades.Pessoas fora do seu estado normal são divertidas, eu fico assim se me obrigam a engolir sapos, se convivo por muito tempo com gente cheia de pose, ou com gente com cara de enterro, pior ainda se for com gente paroleira que desaba-se em perguntas cretinas sobre o peso, a careca, o casamento que ainda não aconteceu, a gravidez um pouco demorada, o divórcio, a morte de algum familiar ou qualquer outra perguntinha cercada de veneno.Incrível como pessoas podem se especializar em inconveniências, a lista seria numerosa, não vale a pena desfiá-la, melhor puxar outros fios, novelos cheios de cores, como minha paixão por cachoeiras, margaridas e lírios do campo, histórias lidas de trás para frente, poemas, tardes contemplativas em algum café, chá de capim limão, rede, boas risadas com os amigos, um fio de conversa que dura uma noite inteira e não se acaba, uma taça de vinho, um sarau, um recadinho na secretária eletrônica, alguns luxos em forma de abraços, massagens, toques nos cabelos, um aproveitamento verdadeiro dessa vida, que se traduz em confiança.Se alguém confia em mim, pronto, sou um cão fiel. Falta de respeito eu não admito, chutar cachorro morto não faço, gosto de brigar com quem esteja em pé, mas tem quem bata e depois se agache, isso me dá uma raiva! Ainda bem que passa logo que não vou virar um saco de amargura, não eu que aprecio cores fortes, que dos embates da vida e da velhice não tenho medo, só quero mais que viver, quero existir, existir a contento.(Luciana Pessanha Pires)

domingo, 12 de julho de 2009

Sentidos - Amauri Ferreira

Sentidos

Quando entendemos que nos relacionamos com o mundo sempre de maneira fragmentada, percebemos que cada elemento da natureza exprime uma riqueza própria, de modo que toda a realidade é renovada pelas singularidades. Quando escutamos uma música, percebemos que há um mundo envolvido na maneira de frui-la: o conforto da poltrona onde sentamos, a ausência de ruído na sala, a necessidade de suspendermos a visão, as lembranças que emergem juntamente com os movimentos musicais, os braços que balançam, as lágrimas que escorrem, em suma, um outro que nos habita revela-se para a nossa consciência – a experiência musical, por não limitar-se à audição, é, antes de tudo, uma grande aliança entre os nossos sentidos. Mas uma poltrona desconfortável, um ruído na sala, os olhos que se abrem, fazem que o mergulho cada mais profundo em nossas lembranças seja bruscamente interrompido: então, a experiência torna-se radicalmente diferente, apesar da música ser a “mesma”. Experiências singulares, acontecimentos: isso ocorre com todas as coisas que nos relacionamos, mesmo quando não nos atentamos à múltipla riqueza de um mesmo objeto, pois, afinal, o nosso corpo sempre deseja outros corpos. É por isso que quando o nosso corpo se relaciona com um outro corpo humano, os nossos sentidos deleitam-se com a imensidão de um novo mundo que abre-se para eles. Através do nosso tato, nos enchemos de alegria: seja quando tocamos, de maneira dengosa, a pele do outro corpo, com os nossos dedos que deslizam sobre o rosto, as orelhas, o pescoço e as pernas, ou então, quando a palma da nossa mão junta-se com a de alguém, conseguimos perceber o movimento de fechar as mãos apenas iniciar-se, ou, ainda, quando há um delicado roçar entre os narizes... Através da nossa visão, nos enchemos de alegria: quando olhamos, atentamente, para os olhos de alguém, conseguimos acompanhar, no intervalo das piscadas, o brilho da vida que emana dali... Através do nosso olfato, nos enchemos de alegria: quando encostamos o nosso nariz na pele de alguém, sentimos o cheiro da vida... Através da nossa audição, nos enchemos de alegria: quando ouvimos um voz sussurrada bem próxima ao nosso ouvido, com um tom tão delicado, que percebemos que ela expressa um enorme cuidado de não afastar a presença do silêncio – afinal, as palavras sussurradas se entendem muito bem com o silêncio... Através do nosso paladar, nos enchemos de alegria: quando beijamos alguém lentamente, sentimos o sabor do amor... Devemos nos livrar do amor a uma pessoa, a um suposto objeto completo, porque é um amor idealizado, sintoma de desperdício do corpo, de desprezo dos sentidos – por isso é inevitável que esse amor seja pobre. Quando menosprezamos o corpo, cometemos o nosso maior erro: como não mudamos a nossa vida, não podemos mudar a vida de alguém... Devemos amar o que se passa em cada sentido, amar as intensidades, para compreendermos que não somos apenas um, mas muitos. Isso é uma relação de amor para com alguém, para com todo o mundo. É impossível que cada toque, olhar, cheiro, som, sabor, seja uma experiência igual a outra. Afinal, cada sensação tem o seu ineditismo, sua singularidade, e viver é alimentar-se a todo momento das diferenças, do inesgotável.


Outra crônica excelente do autor Respiro


Todo corpo e toda mente são perfeitos. O que faz uma mente ser
mais perfeita do que outra é a capacidade de uma produzir mais
idéias do que a outra ...


O corpo sempre sofre afecções — ou modificações — nas misturas com outros
corpos e a mente produz idéias dessas afecções. Porém, Espinosa faz uma observação importante a respeito da união da mente e do corpo: "Ninguém, entretanto, poderá compreender essa união adequadamente, ou seja, Distintamente,se não conhecer, antes, adequadamente,a natureza de nosso corpo." (Ética, 2,Prop.13, esc.).
...A vida humana torna-se pesada quando se tenta, a todo momento,
corrigir a falta dessa ordem imaginária



Amauri Ferreira é Filósofo e colaborador do Canal de Filosofia do Espaço Ecos Portal VMD

sábado, 11 de julho de 2009

tempo e imaginação - creme com morangos

creme com morangos virgínia com afetuoso e agradecido abraço


E o creme com morangos ? A eles acrescento alguns suspiros reservados à ocasião. Afinal, à maturidade lambuza –se com poções de fantasia , doces efêmeras, airadas mas, com tons de eterna jovialidade como os sons de Mozart, as pinturas de Magritte e a filosofia de Nietzsche...

René Magritte, meu surrealista preferido, não era um mero pintor. Ele filosofava por meio de seus desenhos e pinturas, com motivação das interrogantes da existência do ser humano, sempre na dinâmica dos contrários entre morte e vida; luz e sombra; crença e dúvida. Com elementos simples do cotidiano, este mestre do surrealismo subvertia a ordem da realidade criando um clima poético de desconforto. Desejando que o mistério persistisse, a imagem se revelava para além da realidade, pois a chave do mistério estaria na imaginação, criação e memória. As linguagens textual e imagética se fundem nas telas de Magritte, numa justaposição de um novo sentido do espírito. Ao exercício da pintura, impunha-se também o exercício do pensamento, como se houvesse uma traição da imagem para que o pensamento sobrevivesse, afinal, o cachimbo ali exposto contradiz a própria frase: “isto não é um cachimbo” (FOUCAULT, 1983).Michèle Sato in SURREALISMO: uma rede política da vida poética

Sonho Contigo

Vânia Moreira Diniz



De ti vagarosamente me aproximo
Os passos lentos, cadenciados,
Teu olhar na penumbra contemplo,
E sinto-os doces e aquecidos.

Paro incapaz de continuar o caminho,
Petrificada por essa forte admiração,
E me refaço com extremo carinho,
Para longe escutar uma canção.

Tua coragem sinto em pensamento,
Cada gesto uma lição de amor,
Estive perto dos teus sofrimentos,
Em outro espaço que não sei dispor.

Talvez haja muito e muito tempo,
Acariciaste-me com amor extremo,
Só não avalias como foi lento,
O suceder desses momentos.

Sonhei, andei, flutuei no espaço,
Mas só enxergava teu rosto,
As mãos acariciavam meus cabelos,
E o prazer existia em nossos lábios.

terça-feira, 7 de julho de 2009

coisas que se aprende filospsi pedagogia ...

Café Filosófico - O amor é uma coisa que se aprende - Contardo Calligaris - 44:49 - 02/09/2007
(21 Classificações) Avaliar:
"Oscar Wilde notou: as pessoas passaram a olhar languidamente para o pôr-do-sol só depois que esse fenômeno natural se tornara objeto das...todos » "Oscar Wilde notou: as pessoas passaram a olhar languidamente para o pôr-do-sol só depois que esse fenômeno natural se tornara objeto das aquarelas de Turner. Era um jeito de dizer que a realidade não nos sugere o que pintar, ao contrário: é a pintura que nos ensina a olhar. No caso do amor, acontece algo parecido. Sempre houve sentimentos amorosos, mas nossa experiência do amor não tem nada (ou quase) de natural: é uma retórica de sentimentos que aprendemos, assim como uma língua. A cultura moderna produziu um imenso repertório do amor. Aprendemos a amar nos romances, filmes, novelas, letras das músicas populares. O começo do século é um bom momento para fazer uma espécie de balanço, não do que sabemos (sempre muito pouco), mas da variedade do repertório graças ao qual somos amantes. Neste programa o psicanalista Contardo Calligaris desenvolve a idéia de que “o amor é uma coisa que se aprende”. Calligaris vai buscar nas origens das narrativas amorosas uma verdadeira revolução que gerou o mundo moderno. A partir do século 18, o amor foi o agente ideológico da supremacia do indivíduo contra as regras sociais. Com isso, o sujeito passa a ter que inventar a si mesmo, e nisso as narrativas desempenham papel fundamental. Nós todos aprendemos a amar no mesmo repertório cultural das histórias que contamos, vemos e ouvimos. " O programa Café Filosófico é uma produção da TV Cultura em parceria com a CPFL Energia.«

Até entre os peixes a gente encontra os que pulam e saltam cascatas acima. – S Guimarães
-Exato, aprenderam. E só há um caminho para isso, essa sabedoria é a prática quem dá. – PFreire. -
Paulo Freire - Pedagogia Dialogo & Conflito.zip -
Moacir Gadotti, Paulo Freire e Sérgio Guimarães. 4. ed. – São Paulo: Cortez, 1995

Café filosófico Psicanailistas A.Veronica e CCalligaris

segunda-feira, 6 de julho de 2009

António Lobo Antunes -Paraty

António Lobo Antunes Sobre a arte de escrever, disse que o livro é um organismo vivo e que todo grande livro é “uma reflexão profunda sobre a arte de escrever”. “Quando entra em você, ele se faz sozinho, deixa as mãos felizes.” Disse que é preciso ir até as camadas mais profundas de todas as superfícies superpostas da consciência. “Por isso gosto de escrever por cansaço.” E ainda deu receita para escrever, aludindo ao futebol brasileiro: é preciso cabeça, para criar, e mãos para corrigir. “A cabeça cria e a mão corrige. Para quem quer ser escritor, recomendo observar Garrincha jogando. É preciso ter a cabeça de um Didi e a habilidade de um Garrincha.” E, citando Fernando Pessoa, disse que muitas vezes o escritor recebe textos prontos: “O escritor é emissário de um rei desconhecido”. Veja um trecho da palestra.

domingo, 5 de julho de 2009

Encantos do Mar


(...) a água é também um tipo de destino, não mais apenas o vão destino das
imagens fugazes, o vão destino do sonho que não se acaba, mas um destino
essencial que metamorfoseia incessantemente a substância do ser
.( ...

(...) as vozes da água quase não são metafóricas, que a linguagem das águas é
uma realidade poética direta, que os regatos e os rios sonorizam com estranha
fidelidade as paisagens mudas, que as águas ruidosas ensinam os pássaros e os
homens a cantar, a falar, a repetir, e que há, em suma, uma continuidade entre a palavra da água e a palavra humana.-
Gaston Bachelard



Encantos do Mar



enquanto houver mar
haverá comoção
um marujo uma sereia
bastariam para enfeitar o olhar da lua ?

sobre ondas saltam olhares como golfinhos
entre as algas o som dos sonhos vertem...

navegar é preciso e será
enquanto o mar aos homens
chamar

por misteriosos territórios ansiamos
naufragados em loucura ou
à fascinante alquimia entregues

o Poeta transvalora e cria sentidos para vida

de mar é vestido enquanto as estrelas
o observam constrangidas

enquanto o grande mar a todos sugere ;
naveguem embriagados de mim e de Poesia
*virgínia além mar


(...) a imaginação é colocada no seu lugar, no primeiro lugar, como princípio de
excitação direta do devir psíquico. A imaginação tenta um futuro. A princípio ela é um
fator de imprudência que nos afasta das pesadas estabilidades. Veremos que certos
devaneios poéticos são hipóteses de vidas que alargam nossa vida dando-nos confiança
no universo.
GB idem
agradeço à Luciana Pessanha Pires pela dica do artigo recheado de Bachelard

sábado, 4 de julho de 2009

Herdeiros do mar ?

no azul beijam
peixes e tartarugas
queremos te bem-
*vica além mar





Herdeiros do mar...



Embarco e deixo-me embalar, em devaneios e reflexões, na imagem dos barcos vazios à espera dos Pescadores .
Incomensuráveis foram as horas que me detive ao exercício contemplativo, talvez, buscando uma aproximação das figuras ausentes pelas quais nutro admiração nostálgica . Estas levam-me aos primórdios da civilização,anterior a agricultura que modificou hábitos; pescadores juntamente com o caçador-coletor vivia integrado à natureza sob suas leis.
O arquétipo de pescador poderia povoar-nos ? Poderemos utilizar da ancestralidade para aproximarmo-nos do antropos, arquétipo do homem natural dono de um saber instintivo, sensível ?
Enfrentar o mais temido ; as forças da natureza e respeitá-las cabe ao bom pescador. Possuidor de conhecimentos sobre as condições climáticas, adquiridas através da observação celeste , ventos e, movimentos e sons das aves e marés...
Serão Poeta leitores de estrelas ? As águas negras das noites sem luar o amedrontam certamente mas não entregam-se às forças sombrias da psique. Acompanhado ou só com seus pensamentos e fé prosseguem . Embora tenham intimidade com embarcações não se avalentam demasiadamente ao ponto de desafiar o mar. Parece que não são consumidos pelo ideal de um eu... São ecologistas naturalmente, bem aterrados, apesar de sobre águas, quase sempre, estejam ocupados seus pensamentos.
Flutuam como anjos sem asas no horizonte resguardando o sentido do sagrado ... Seus olhos encharcados de sol trazem o brilho dos que sabem que não estão a procura de quimeras e recompensas vãs. Seus sonhos também sobrevivem às ameaças do galope vertiginoso do progresso destituído de ética.
No meu imaginário este homens que vivem da pesca são privilegiados por conta de poderem vivenciar a figura mítica do herói em sua lendária individuação , integração da própria psique emprestando conceitos junguianos. Esta atividade tão antiga não é ensinada nas escolas e sim no exercício de vida, transmitida oralmente de pai para filho na maioria das vezes.
Quiçá haja espaço nos dias das cidades, para o homem contemporâneo que vive espremido entre os idéais de seus pais e seus próprios anseios de liberdade, para que vivam suas fictícias façanhas e, sintam-se fortes guerreiros; os melhores aos seus e aos olhos de suas mães. E, que um contentamento lhes sobre para sorrir ante as batalhas íntimas e as possa enfrentar de cabeça erguida.
Aos senhores , não de escravos, ou da natureza, mas de si mesmos, com suas mãos calejadas, cortadas pelas linhas de redes e vidas, açoitados pelo vento, frio e sal , que na tenaz coragem e humildade sobrevivem, pretendi reportar-me em singela referência. Ainda, fomentar a crença que possa haver respeito aos homens do mar e ao próprio. Anseio que seus costumes simples sejam ensinamentos a futuras gerações o que não é fácil. Que a literatura ocupe-se também do valor das narrativas seculares de seus feitos, ansias de inclusão e, consiga aproximar-se , com linguagem acessível aos simbolos locais de seus herdeiros. Alguns dentre estes homens, ainda são como pedras, simples na aparência contendo em seus interior um rio de fogo, apesar da pouca importância midiática a eles dispensada. Constituem uma resistência ante aos apelos do ter . Quero crer que hajam mantenedores da ligação com o centro da personalidade, contrastando com a corrida pelo capital e bens irreais ...