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quarta-feira, 11 de julho de 2012

a PRÁTICA DO PRAZER... filosofia


  trechinho da aula do Prof. Claudio Ulpiano sobre Lucrécio e Espinosa 16-06-1994

"(...)Pela Vênus Voluptas, a alegria e a prática do prazer se dariam integralmente. Então, apareceu uma coisa muito estranha. É que nós estamos vendo uma filosofia se confrontar com algo considerado pelos homens, talvez, como o mais importante de suas vidas ― que é o amor. 
Então, essa filosofia está surpreendentemente afirmando que o amor ― de maneira alguma ― nos traria a felicidade. E essa filosofia é toda ela dedicada às PRÁTICAS; e ela diz que há duas práticas ― a PRÁTICA DO PRAZER e a PRÁTICA DA DOR. E ela vai afirmar que o amor é aquilo que nos traz muita dor ― porque nós dependeríamos permanentemente de alguma coisa exterior a nós mesmos. Enquanto que Vênus Voluptas, que é a amizade, comunidades de amizade gerando prazeres, independentemente de relações de qualquer um com qualquer um, não nos conduziria a essa posição do amor. Faria aparecer o que é mais importante na vida ― que é a liberdade. A liberdade seria conseguida pela Vênus Voluptas, mas seria impedida pelo Eros....

(...)Então, aqui vocês recebem a informação principal do que é exatamente a minha maneira de trabalhar em filosofia: a filosofia, a arte e a ciência ou a vida só têm um instrumento de libertação ― o pensamento. Então, isso se torna simples? Não. Isso se torna muito complexo, porque a partir de então, nós temos que verificar o que é o pensamento.(...) 

(...) Porque o sujeito psicológico que nós somos é constituído por associações de idéias. Nós vamos passando de uma idéia para outra, de um fato para outro: diz outra coisa meu amigo! Aí nós vamos conversando de uma coisa para outra, de uma coisa para outra, aí não abandonamos nunca o sujeito psicológico que nós somos. Para entrar no pensamento é fazer esse percurso em direção aos mundos possíveis, é sobretudo quebrar essas associações de idéias. Porque essas associações de ideias são exatamente a doxa e aquilo que nos dá um conforto, uma segurança. Nós passamos a achar que está tudo bem, que está tudo tranquilo, que está tudo calmo: não está; não está! Nós estamos diante do caos. Nós estamos diante do caos, nós estamos diante do vazio e é o pensamento que tem que confrontar com ele e de lá trazer alguma coisa. (...)

Vocês, então, têm aqui a tríade: sujeito psicológico, objeto e pensamento. Como minha primeira exposição de pensamento, o pensamento seria, no caso do Espinosa, o que ele vai chamar de ideia expressiva. A ideia expressiva é porque o pensamento é aquilo que expressa esses mundos possíveis, enquanto que o sujeito manifesta as suas psicologias. Nós vamos diferir um sujeito humano ― ele está sempre manifestando os seus fantasmas, as suas biografias… E quando você lê esses textos de best seller, os sujeito é sempre fantástico (não é?). É sempre um sujeito fantástico, que é diferente do que o Proust está dizendo do pensamento ― que é a entrada nos mundos possíveis. Isso vai se chamar idéia  expressiva. (Eu acho que foi bem, não é?). Chama-se IDÉIA EXPRESSIVA, no sentido de que expressa os mundos possíveis. E o sujeito é aquele que manifesta a sua psicologia.
(fim de fita)
Parte 2
A representação representa os nossos estados psicológicos, a nossa biografia, os nossos fantasmas. Enquanto que a expressão, a idéia expressiva, à diferença da idéia representativa, (aí que vai começar a ficar difícil, eu vou fazer um esforço enorme para vocês entenderem…), a idéia expressiva não expressa o psicológico. Ela vai expressar o que em Proust chama-se mundos possíveis e em Espinosa chama-se terceiro gênero do conhecimento. Aí, veja bem, é possível que nós possamos dizer algo que não seja da nossa psicologia, dizer algo que está em nós, mas não é psicológico. É como se fosse uma unidade diferente, alguma coisa que nos pertencesse, mas não fosse nosso; alguma coisa do espírito, mas não da nossa biografia, não da nossa subjetividade. Ou seja, a função da arte não é contar os nossos sofrimentos pessoais, a função do pensamento não é dizer da nossa história, da nossa biografia, mas é expressar isto que eu estou chamando de mundos possíveis. (Dois pontos, que eu vou começar a explicar. Acho que foi bem outra vez, não é?).
O que eu quero que vocês marquem, que não se esqueçam, é a distinção entre idéia expressiva e idéia representativa ― e a propriedade que eu coloquei na idéia representativa, que é a distância. Isso daqui é fundamental no momento em que a gente for trabalhar em arte. Que a distância faz parte da representação. E um outro fato que eu distingui, fiz uma distinção entre manifestações psicológicas e expressões de alguma coisa que está dentro, mas que não é psicológico.
(Então, vamos fazer essa passagem, eu vou para dois minutinhos para tomar um café. Podem perguntar também).
É o que vocês vão fazer para fazer o uso da vida de vocês. Ou seja, tornar esse planeta magnífico ou, mais do que nunca, torná-lo paranóico e insuportável, como ele é. Quase que já explodindo, de tão insuportável que ele é.(...)

toda aula do Prof. Claudio Ulpiano sobre Lucrécio e Espinosa 16-06-1994 http://claudioulpiano.org.br.s87743.gridserver.com/?p=2891

ilustração - Vênus de Bouguereaul