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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Um homo publicus como poucos

Há muito não uso meu próprio blog, não sei bem porque. Talvez por modéstia. Hoje acordo com volúpia de marido que saiu cedo para trabalhar e corro ao texto que escrevi sobre ele. Descaradamente. Ele merece o título que deveria ser um homo publicus mais que correto.
Espero que gostem, amigos.

Um homo publicus

- Não sabia que o senhor era um homem público! -, exclama, entre surpresa e feliz, a gerente do banco mais importante da cidade. Daqueles que aparecem na tevê e se auto-intitulam especiais porque atendem à gente mais celebrada do Rio de Janeiro: atores de TV, músicos e cantores de rock abrasileirado ou de samba de classe, empresários, um ou outro intelectual.
- Ah! Obrigado -, responde o dono do louvor, sem graça e sem querer, por não saber bem se era elogio.
Homo sapiens, homo publicus...Categorizações sempre soam melhor em latim, eu acho. Não seria mais acertado homo academicus? Afinal, ensino em universidade há muitos e muitos anos. Difícil encaixar uma única denominação para a mistura de gente da minha espécie. Se bem que os tais homens/mulheres públicos são, em geral, fanáticos, só pensam nisso de serem públicos, condição de vida que, para mim, não é sine qua non. Tenho certeza.
Por outro lado, claro que me cabe o epíteto, se tomado no sentido de pessoa que se ocupa de causas públicas: educação, saúde, moradia, preservação do meio-ambiente... Suo minha camisa na luta pela saúde para todos, sem descriminações, desde que entrei para a faculdade.
Alguns incentivos para me tornar um homem público strictu sensu bem que os tive, mas a política com P grande não era minha carreira de escolha. Timidez, parece. Lembro-me da época em que me inculcaram na cabeça que devia ser prefeito da cidade em que vivo. Ums batalha para conseguir meia dúzia de adeptos à idéia. E de onde extrair os famigerados votos? Sem grana, nem cara de pau, como é que se pode ser político no Brasil?
Achava que político devia começar cedo, pela atração irresistível pelo poder, pela notoriedade. E tinha que ser viciado em votos. Caçar votos vicia mais que a caça aos animais dos ingleses antigos, desses que aparecem nas gravuras de época do meu living.
Certo que eu tinha lá minha dose de sedução, qualidade imprescindível aos políticos estrito ou lato senso. Conforme meus comparsas, não me falta simpatia até hoje.
- Raul é danado. Superpolítico, gente. Com seu sorriso de covinhas, conquista gregos e troianos.
Raridade num mundo de pessoas muito egoístas, eu me importo deveras com os demais da sociedade. Desde garotinho. Não que me despoje de meu próprio conforto. Tenho um à vontade para conversar com pobre, difícil de encontrar na classe média, salvo nos que se ocupam com obras de caridade. Em geral, gente abastada, que não quer ter sentimento de culpa ou almeja o Reino dos Céus. Abordado por um mendigo ou quase, num botequim qualquer da esquina, ofereço um golinho de café ou bebida, uma salgadinho, como se fosse um conhecido, e entabolo uma conversa, logo, logo. O que, certamente, choca as pessoas mais metidas à besta.
Meu pai era médico com uma baita clinica de moradores do bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Aos cinco anos, eu aprendi a ler, segundo minha mãe, e nos jornais dela.
- Garoto prodígio esse meu filho!- contava ela às vizinhas. Pensa que lhe interessam as páginas infantís, de pouca letra e maiúscula ? Qual nada! Ele procura palavras de jornalistas. Se não entende direito, me pergunta o que é e eu troco tudo em miúdos pra ele.
Muito cedo aprendi a entender uma notícia, sobretudo, quando falavam bem ou mal da política do governo, e demonstravam com cifras o quanto nosso país é grande e rico de ofertas da mãe-natureza, embora pobre em muitas regiões do interior e mesmo dentro das cidades. Comecei a ouvir falar de favelas em garoto ainda.
Não era do meu tempo, mas prestava atenção quando falavam de Getúlio Vargas, um presidente híbrido, que aliava mão de ferro a políticas trabalhistas, a ações em diferentes áreas sociais, sempre em favor dos mais necessitados. Trabalhadores do Brasil, sua frase predileta dos discursos, não era uma balela.
- Isso é que é presidente!, pensava alto, mesmo que meu pai discordasse.
Quando ouvi pelo rádio a notícia da morte do estadista, depois do Getúlio ter sido eleito pelo povo, chorei demais. Tinha ódio de Carlos Lacerda. E não me saía da cabeça o combate à desigualdade social tão comentada, jamais resolvida.
A voz de meus colegas de vila de repente volta a meus ouvidos:
- Vamos bater bola? Vamos dar uma volta de bicicleta?
Por falta de inclinação a exercícios físicos, recusava, preferia as atividades sedentárias: ler e escrever. Gostava de futebol como todo brasileiro, mas não para gastar o corpo em peladas. Olha meu irmão que quebrou o nariz tão bacana num joguinho besta de fundo de quintal.
Um dia resolvi fazer um jornal. Era ainda um menino. Em uma semana, saía o jornalzinho de nossa vila. Ali, entre notícias tiradas de jornais da cidade, falava de tudo o que o me interessava, de eventos da rua, do calendário da cidade...
“Mês de junho, mês de São João. A rua vai ficar cheia de bandeirinhas e balões japoneses. Venha tomar canjica e comer pé de moleque!”
Depois de curtida a festa com os colegas, voltava à vidinha de escola e quarto da casa. Parecia mais escritor-futuro do que futuro médico-professor.
Só que a faculdade de medicina de filho de peixe me veio como caminho natural. Em meio aos livrões de vergar coluna, a prática médica. Interessado nos doentes sem dinheiro, sempre os tratava com atenção e cuidado, na enfermaria do hospital universitário. Não era apenas a doença que me dava pena, mas a junção dela com pobreza, para mim, a pior coisa do mundo.
De repente, impulsionado por inclinação não suspeitada, o clínico geral descubriu que tratar da saúde tinha outras conotações: me envolví com o estudo teórico da organização da saúde e dos meandros da desigualdade do atendimento médico. Isso me fez um homem público? Cresci rápido na área.
- Michel Foucault chega esta semana para o simpósio – anunciaram os organizadores do encontro, com orgulho.
A lembrança do acontecimento inusitado me faz refletir sobre como classificaria Foucault e outros tantos pensadores da sociedade, que conheci pessoalmente ou de leituras. Outra vez a categorização em minha cabeça. Homo academicus é pobre demais para quem não se conforma a padrões estabelecidos e quebra estruturas. Homo sapiens no verdadeiro sentido da palavra, sem sombra de dúvida, mas é banal demais, embora muitos seres pensantes não mereçam a classificação, por não saberem usar bem suas funções. Homo philosophicus cabe, sim, no sentido mais amplo.
Entre aulas dadas na mesma universidade que me formou, recebi convites para trabalhar em outros países e muitas comemorações de sucesso. Modéstia à parte, acho que minha vida bem que merecia uma biografia especial. Só a quantidade de hablas – gente que hablaba español da América Latina- com quem eu convivia, daria para encher muitas páginas de troca de conhecimento, misturada com alegria e muita festa, que eu nunca fui um chato. Lembro dos bobós de camarão, oferecidos por uma grande amiga aos visitantes, com uma saudade... Afastado dos latino americanos, adeus, bobó, adeus caipirinhas degustados pelos convivas. Eles sabiam, como eu, juntar trabalho e festa, na maior. Num instante, aprendi espanhol.
No dia em que voltei do único cargo público que tive na vida, o homo politicus se desvaneceu. Tinha vivido as sinuosas vias da vida política, com a idéia fixa de sempre: ajudar a causa pública. E, pasmem, não enchi os bolsos às custas do cargo, graças a Deus!
Hoje, após muitas façanhas, acho que tenho direito à paz do lusco-fusco profissional. Muita luz acaba com a imagem, já se sabe. Hora de levar a vida com mais cuidado, sem abdicar da criatividade, que ajuda o ser humano a manter-se alerta, logo, vivo.
De vez em quando, a voz da gerente do banco volta a meus ouvidos: ... Um homem público, um homem público. E eu, sem entender direito, sorrio sem graça e baixo os olhos, meio que envergonhado, como é de meu feitio.

Maria Lindgren