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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A dignidade de uma cantora

A dignidade de uma cantora
Maria Lindgren
A arte deve seguir os ditames políticos de um país ou tem que denunciar os abusos de poder? Os melhores artistas são os que empregam sua arte para denunciar os governos ditatoriais, a sociedade corrupta, enfim, tudo o que de mal se passa na sociedade em que vivem ou na sociedade mundial? Discussão antiga, mas nunca esquecida.
Sei que há exemplos de escritores famosos que, alguma vez, foram favoráveis a ditadores, como o grande poeta anglo-americano Ezra Pound, que se deixou seduzir pelo fascismo, pasmem. Apesar de ser, sem dúvida, um dos maiores poetas modernos de todas as literaturas. E foi ele mesmo que escreveu contra todas as formas de opressão:
“Go meu song, to the lonely and unsatisfied/ Go also to the nerve-racked, go to the enslaved by convention/ Bear to them my contempt for their oppression...”
Em geral, tendo a preferir a Arte chamada pelos franceses de “engagée”, que não traduzo porque não gosto da palavra em português. Aceito, com certa relutância, os neutros da corrente “arte pela arte”, que não se manifestam e tratam de temas gerais. Desprezo, isso, sim, os que se aliam aos ditadores, como no caso da cineasta alemã Lenny Reinfestald, embora reconheça que seus documentários sobre o nazismo são de boa qualidade. Amiga de Hitler, não!
Até 1985, ano da reinstalação da democracia no Brasil, era impossível para mim não sentir a Arte,que combatia a ditadura e defendia os valores democráticos, ainda que não participasse diretamente de nenhum movimento político.
Daí que a cantora argentina Mercedes Sosa se tornou um emblema para as gerações que viveram sob o jugo da tirania. Conseguiu aliar seu canto ao movimento político chamado da esquerda, sem prejuízo de sua Arte. E sua morte, no domingo, 4 de outubro de 2009 – uma data para se lembrar – nos encheu os olhos de lágrimas de verdade.
Para nós, brasileiros, como para argentinos, chilenos, peruanos ou nicaragüenses, sua voz poderosa e firme “ brotando como um musguito en la piedra”, a entoar Gracias a la vida, apesar das tristezas infligidas por uma das piores ditaduras que foi a da Argentina dos militares e pelo exílio quando já não podia mais, seu corpo grande e seu rosto emoldurado por cabelos tão belos quanto seus sentimentos, não serão esquecidos jamais.
Sobretudo, Mercedes Sosa é importante para aqueles que sofreram de perto os absurdos ditatoriais, inclusive prisão, tortura, desaparecimento e morte, que precisavam gritar seus protestos e seu pranto, mas não podiam.
Nossos melhores compositores e cantores brasileiros, como Chico Buarque, Fagner, João Bosco e outros tinham que usar de subterfúgios para dizer, em palavras disfarçadas, o que lhes ia no coração, levando as pessoas a se conscientizarem de algum modo. A censura forte e burra dos meios de comunicação, felizmente não percebia o que Mercedes e seus amigos nos queriam transmitir em canto e versos, dando-nos de presente seus espetáculos inesquecíveis, pela energia que nos devolviam a cada vez, tornando-nos mais decididos, mais fortes, mais unidos para defender nossas convicções.
A América Latina, com sua língua diferente da nossa, mas comum a todos os demais países, entendeu a mensagem, se foi juntando, transformada em uma só pátria, de um só objetivo, deixando de lado os norte americanos e europeus, quiçá pela primeira vez.
O eco da voz da grande cantora Mercedes Sosa retumba em nossos corações libertários. Segue seu caminho, Mercedes! Deixe-nos suas canções e vá, com a certeza de que não a esqueceremos nunca.

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